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11/07/2004 16:46
José Miguel Wisnik dá o recado de Guimarães Rosa na Flip

Por Luciana Araujo

A primeira mesa do último dia da Flip “Festa Literária Internacional de Parati” deu conta de um recado enigmático: a arte de João Guimarães Rosa, escritor homenageado nesta segunda edição do evento. O menino de recados? O músico e professor de literatura da USP (Universidade de São Paulo), que foi aplaudido de pé pela platéia que prestigiou sua palestra.

Em uma minuciosa análise, Wisnik percorre e desvenda, parada por parada, o caminho pontuado por personagens recadeiros de “O Recado do Morro”. Neste conto de Guimarães, presente no livro “Corpo de Baile”, um naturalista nórdico parte em uma viagem de ida e volta em uma comitiva junto com um fazendeiro e um frei, guiada por dois sertanejos. Eles partem de Cordisburgo (cidade natal do escritor) rumo ao rio São Francisco, percurso feito pelo próprio Guimarães e registrado em fotos bastante conhecidas, em que ele aparece a cavalo.

“A história mergulha no mundo iletrado, da oralidade sertaneja, por uma perspectiva do superletrado”, explica Wisnik, referindo-se ao encontro entre o personagem do estudioso dinamarquês, que quer registrar tudo o que vê, “dando nome ao que não tem nome”, aquele que é o homem dos livros e conhece os clássicos da literatura universal com o homem do sertão mineiro e com a própria realidade geográfica.

Os personagens recadeiros que pontuam o caminho da comitiva são: Gorgulho, o ermitão, que diz ter ouvido um recado do morro dirigido ao sertanejo Pedro Osório; Catrás, irmão de Gorgulho, que conta a seu modo o que ouvira do primeiro; o menino que gosta de se comunicar, Joãozezim; Guégue, um rapaz que leva e traz recados dos fazendeiros; o fanático religioso Nominedomine, que, por sua vez, reconta o que ouvira de Guégue e o poeta-cantador Laudelim, que faz uma canção a partir do relato.

E como se dá este encontro? - Segundo a leitura feita por Wisnik, este encontro entre o oral e o escrito, presente na obra de Guimarães, se dá por meio do recado. Wisnik lembrou ainda o fato de a palavra “recado” não possuir uma tradução que dê conta do sentido que tem para o português falado no Brasil. Assim como não há a mesma idéia contida nos possíveis sinônimos: “mensagem” e “comunicado”.

O professor pontuou as características dos personagens que vão surgindo neste trajeto, assim como a relação entre os significados cifrados dos nomes dos lugares, com a peculiaridade do ocorrido em cada encontro. “É a viagem de um recado que vai se transformando até ganhar sentido”, disse Wisnik. Neste caminho a paisagem retratada também é decisiva.“O rio se comunica por recados”, interpretou o professor, lembrando que rios em Minas passam tanto pela face visível das montanhas, como pela face invisível das grutas.

A ambivalência entre o oral e o escrito não é a única na obra de Guimarães. O tal recado do morro, por exemplo, fala tanto de festa como de morte e remete, segundo a leitura de Wisnik, ao enigma da própria formação do Brasil, em que público e privado se confundem, ao “homem cordial” - de Sérgio Buarque de Holanda - para quem a regra que vigora é da vingança e da aliança, em que arcaico e moderno não se excluem.

“O Brasil é uma droga no duplo sentido do termo e Guimarães nos transmite o recado de uma alquimia desse Brasil que é veneno e remédio”. Afinal, “O Brasil nunca se entende por isto ou aquilo, mas por isto e aquilo”. conclui Wisnik.
enviada por Redação



10/07/2004 20:40
No meio de tanto riso, uma notícia triste: o fim do “Pasquim”

Como não poderia deixar de ser, a mesa “Humor, do traço à palavra” da Flip “Festa Literária Internacional de Parati”, com Luis Fernando Veríssimo, Angeli e Ziraldo foi recheada de histórias engraçadas. Entre uma boa gargalhada e outra, Ziraldo contou que esta semana sai a última edição de “Pasquim”.

“Queria manter a idéia de que imprensa é missão.Esgotou a possibilidade de mantê-lo”, disse Ziraldo.“O Pasquim terminando está acabada uma era no jornalismo e humor”, declarou Luis Fernando Veríssimo.

A última edição do “Pasquim” traz na capa “Adeus velho Briza”, sobre o Leonel Brizola, presidente nacional do PDT que morreu no dia 21 de junho.

enviada por Redação



10/07/2004 20:39
Lygia, Scliar e Veríssimo: clássicos contemporâneos falam dos clássicos de sempre

Por Luciana Araujo

Três nomes de peso da literatura brasileira contemporânea estiveram reunidos na tarde deste sábado, no penúltimo dia da Flip “Festa Literária Internacional de Parati”. Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e Luis FernandoVeríssimo, convidado para substituir o escritor João Ubaldo Ribeiro, que se recusou a participar do evento, falaram sobre clássicos nacionais com muita paixão e bom humor.

Os textos escolhidos pelos escritores acabaram por prestigiar três diferentes gêneros literários: crônica, conto e romance. Luiz Fernando Veríssimo leu duas crônicas de Antônio Maria. Moacyr Scliar homenageou o conterrâneo e pai do companheiro de mesa: Érico Veríssimo, lendo um trecho do conto “Os devaneios do coronel”.

Já Lygia Fagundes Telles falou sobre sua admiração por Machado de Assis e escolheu o romance “Dom Casmurro” como tema central de toda sua fala e das diferentes leituras que ela fez desta obra ao longo de sua vida com relação à eterno questionamento sobre a fidelidade de Capitu.

Segundo a escritora, ao ler o romance pela primeira vez, com 18 anos, achou a personagem dos “olhos de ressaca” muito pura e Bentinho um “esquizofrênico” e muito cruel. Em uma segunda leitura, quando já era advogada formada pela faculdade do Largo do São Francisco em São Paulo – desconfiou daquela impressão inicial achando que Capitu, de fato, havia traído o marido com Escobar. Numa terceira leitura, ainda se sentiu instigada pelas mesmas dúvidas de sempre, sem chegar a uma conclusão.

Moacyr Scliar lembrou que na sua época de escola o contato com as chamadas obras clássicas não se deu de modo muito atrativo. “Autor clássico era necessariamente autor morto. Quanto mais morto, mais clássico. Além disso, o aluno que não se comportava bem, e este era meu caso, tinha que copiar 20 estrofes de “Os Lusíadas” como castigo, de modo que ninguém conhece melhor a obra de Camões como eu”, brincou Scliar.

enviada por Redação



10/07/2004 18:13
Ferréz traz a periferia para o centro do debate na Flip

Por Luciana Araujo

O escritor Ferréz e o sociólogo José de Souza Martins empolgaram a platéia da Flip “Festa Literária Internacional de Parati”, neste sábado, com um tema árido: a exclusão social, ou melhor, a “inclusão perversa”, como define Souza Martins.

Morador do Capão Redondo, bairro da periferia paulistana, Ferréz retrata em seus livros a realidade que o cerca, fazendo do espaço marginalizado o protagonista de sua ficção. O jornalista Zuenir Ventura, mediador da mesa, celebrou a obra de Ferréz como uma novidade.

O jornalista destacou o fato de a periferia ter sido um recorrente objeto da arte, mas sempre vista do ponto de vista do centro. “Por maior que tenha sido a boa vontade dos artistas, o abismo entre uma realidade e outra sempre dificultou essa aproximação”, disse Zuenir Ventura, que aproveitou a oportunidade para elogiar a iniciativa dos organizadores da Flip abrir espaço para o tema. “É a inclusão da exclusão na Flip”, afirmou o jornalista.

“A palavra exclusão é uma grande sacanagem conceitual”, afirmou José de Souza Martins explicando ao público a idéia central de seu livro “A sociedade vista do abismo”. Segundo o sociólogo, a palavra exclusão não carrega em si a possibilidade de transformação e o que ele observa é que as pessoas não estão excluídas, mas incluídas perversamente, como é o caso do trabalho escravo.

“Eu vou pra onde eu quiser. Já visitei favelas de vários lugares do Brasil. No máximo um mano se aproxima e pergunta o que eu estou fazendo por ali. Quem está excluído do país inteiro é a elite”, argumentou o autor de “Capão Pecado” e “Manual prático do Ódio”. Este último, aliás, vai virar filme. Os direitos já foram adquiridos pela diretora Daniela Thomas e Antônio Pinto. Ferréz também deve trabalhar no roteiro.

Ferréz destacou ainda que o fato de ser da periferia não pode ser o motivo que desperte o interesse no leitor. “Às vezes uns mano mostram uns vídeos para mim e eu digo que está uma bosta e digo pra eles: o pessoal tem que gostar do nosso trabalho porque é bom e não por dó”, sentenciou Ferréz.

enviada por Redação



10/07/2004 14:34
A História como inspiração para a literatura ficcional

Por Luciana Araujo

A História como ponto de partida para a criação literária foi o tema central da primeira mesa deste sábado na Flip “Festa Literária Internacional de Parati”. O escritor português Miguel de Sousa Tavares e o argentino Pablo de Santis como trabalharam em seus romances, “Equador” e “O calígrafo de Voltaire”, respectivamente, a junção de fatos e personagens reais em uma obra ficcional.

Miguel de Sousa Tavares, que sempre foi jornalista, contou que em “Equador”, seu único romance, misturou situações reais com ficcionais. “As reais passaram por pesquisa. Investiguei a vida do rei. Queria saber o nome dos cachorros dele, mas não achei, então inventei”, contou o escritor. Segundo ele, fica por conta do leitor a “adivinhação” do que é verdade ou mentira. Mas há sempre uma âncora na realidade”, disse Miguel de Souza Tavares.

Pablo de Santis lembrou também que a própria História, apesar de real, não deixa de ser uma coleção de relatos, fábulas e mitos. Para Santis, o interesse na literatura, além da fantástica, com a qual ele também trabalha em outros livros, esteve sempre muito ligado ao desvendar de tramas e segredos. “No caso de ““O calígrafo de Voltaire” a intriga está baseada em pontos históricos”, explicou Santis.

Os dois escritores disseram optar pela neutralidade diante dos fatos que retratam e pela utilização de uma linguagem contemporânea, mesmo ao fazer romance histórico. “Ao construir uma imagem de época, eu me preocupo apenas em eliminar palavras contemporâneas demais”, disse o argentino.

Na abertura da mesa, mediada pelo escritor Moacyr Scliar, Miguel de Souza Tavares fez uma homenagem à mãe dele, que faleceu há 8 dias, lendo um poema escrito por ela. “Este poema é um hino à continuidade. E esta é a missão dos vivos”, disse Tavares emocionado. O português destacou, ainda no início de sua fala, sua impressão sobre o evento. “Estou encontrando com as pessoas que habitam minha estante. É como se eu tivesse entrado nela”, metaforizou o escritor.
enviada por Redação



10/07/2004 11:49

Hoje acontece o grande encontro: Chico Buarque e Paul Auster

Juliana Junqueira, especial para o iG Ler


Sábado tem a programação mais esperada desta segunda edição da Festa Literária Internacional de Paraty. Tudo por conta do grande encontro entre o compositor e escritor Chico Buarque e o romancista americano Paul Auster. O embate será na última mesa do dia, às 19h15. Antes, eles se encontrarão em um ambiente muito mais informal. No início da tarde os dois participam de um jogo de futebol com feijoada. O mistério que cerca a “pelada” virou até folclore em Paraty.

Clique aqui para assitir aos vídeo com o romancista americano Paul Auster.



Mas a programação do penúltimo dia da Flip começa bem antes. Confira a programação de hoje:

10 horas - A história como inspiração

Miguel Sousa Tavares e Pablo De Santis

O jornalista português Miguel Sousa Tavares é um fenômeno literário tardio. Polêmico em artigos e em programas de TV, só em 2003, com 51 anos, lançou Equador, seu primeiro romance, ambientado em São Tomé e Príncipe, em 1905. Foi um campeão de vendas. O argentino Pablo De Santis alcançou um ponto alto na sua breve mas revigorante carreira com O calígrafo de Voltaire, que tem o Iluminismo francês como pano de fundo. História, para ambos, não é só passado, mas presente.

11h30 - Exclusão social: fato & ficção

Ferréz e José de Souza Martins

O que Ferréz faz, já se disse, é ficção documental com alto teor de crueza e contundência. Seu posto de observação é o Capão Redondo, bairro da periferia de São Paulo. Manual prático do ódio é seu livro mais recente. O sociólogo José de Souza Martins, professor emérito da Universidade de São Paulo, há anos estuda a aberrante singularidade do abismo social brasileiro. Ficção e fatos produzem pontos de vista que se entrecruzam.

15 horas - Os clássicos dos clássicos

Lygia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro e Moacyr Scliar

Lygia Fagundes Telles e Moacyr Scliar são clássicos contemporâneos da literatura brasileira. A paulista, autora entre tantos livros do consagrado As meninas, o baiano, aclamado escritor de Viva o povo brasileiro, e o gaúcho, celebrado entre outros livros por O centauro no jardim, têm sólidas e reconhecidas obras que os levaram à Academia Brasileira de Letras. Mas quais são os clássicos preferidos destes clássicos brasileiros?

16h45 - Humor, do traço à palavra

Luis Fernando Verissimo, Angeli e Ziraldo

Luis Fernando Verissimo, o escritor mais vendido no Brasil, também é cronista do jornal O Globo e cartunista de vários periódicos, além de saxofonista nas horas vagas. Fina ironia é a sua marca. Com mordacidade contundente, o paulista Angeli retrata a política e os costumes em tiras no jornal Folha de S.Paulo. Depois de ser humorista em tempo integral, Ziraldo virou um best-seller como autor de histórias infantis. Sem os três, não se conta a história do humorismo brasileiro. E como é fazer humor na era Lula?

19h15 - O romance dentro do romance

Chico Buarque e Paul Auster

O que o americano Paul Auster, de Leviatã e de A invenção da solidão, tem a ver com o brasileiro Chico Buarque, de Estorvo e de Benjamim? Nada, ou quase nada. Mas tanto o festejado Noite do oráculo, de Auster, quanto o notável Budapeste, de Chico, têm um intrigante ponto em comum: o romance dentro do romance. Há outro traço que obliquamente os une. Auster é tão interessante escrevendo para o cinema quanto o é na literatura. Chico, divindade da música popular brasileira, definiu uma clara e luminosa identidade literária.
enviada por Redação



10/07/2004 11:47

Veríssimo nas ruas: o mais popular

Juliana Junqueira

Um dos objetivos da Festa Literária de Parati é aproximar os leitores dos escritores. E isso acontece não só nos debates. Eles circulam bastante pelas ruas da cidade histórica e provocam até situações engraçadas. O escritor Luiz Fernando Veríssimo, por exemplo, ao sair da mesa da canadense Margaret Atwood causou um "pequeno tumulo" entre os leitores. Quanta popularidade!

O escritor estava ao lado da mulher quando uns leitores pediram autógrafos. Não parou mais de juntar gente. Eram uns 15 fãs querendo autógrafos ou tirar fotografias. Algumas pessoas paravam na rua para confirmar se era mesmo o autor mais vendido no Brasil. "É mesmo quem eu estou pensando", perguntou surpreendido um passante. Ao lado de toda a "confusão" estava a mulher do escritor. "É impressionante como ele atrai crianças", disse sua mulher, Lúcia.

enviada por Redação



10/07/2004 11:46

Situações engraçadas, embaraçosas e constrangedoras da Flip

Aconteceu este ano de novo! Uma leitora parou na rua o escritor Zuenir Ventura na rua para pedir um autógrafo. O escritor, escaldado da edição anterior – quando foi confundido com o português José Saramago – devolveu a pergunta à fã. "Você sabe quem eu sou", disse. Ela respondeu: Zuenir Ventura. E o bom humor imperou. "Não, sou José Saramago", completou ele, deixando sua leitora confusa. E

sta é uma história que contam pelas ruas da Segunda Festa Literária Internacional de Parati. Na primeira mesa do dia, os escritores Luiz Vilela e Sérgio Sant’anna discutiam sobre contos. No meio do debate, quando perguntado sobre quais seriam os contistas de que ele mais gostava e que o teriam influenciado, o escritor Sérgio Santana respondeu que, ao contrário do que seria uma resposta clássica, que não citaria Machado de Assis. Segundo o autor, a leitura dos contos de Machado de Assis não trazia novidades. Aliás, muitas vezes ao ler Machado pensava, "que saco, esta ironia outra vez". Sérgio Santana diz ter aprendido muito mais com os argentinos Julio Cortázar e Borges. Por coincidência, atualmente o autor de contos que mais o surpreendeu também é um argentino, só que contemporâneo.

O escrito Moacyr Scliar estava na Praça da Matriz quando encontrou o cineasta Hector Babenco, que não o reconheceu. Babenco, sem graça, tentou se desculpar pela falha. "Mas você está muito informal", disse, um pouco constrangido. Sem mostrar ter ligado muito para a situação Scliar soltou: "É que estou fantasiado de atleta."

Um dos acontecimentos mais comentados da Flip é a famosa feijoada com futebol que marcará o encontro entre Chico Buarque e Paul Auster. Sabe-se apenas que uma van levará os convidados do centro da cidade até a chácara. O local está sendo mantido em absoluto sigilo. Todos os palestrantes da Flip foram convidados.

A escritora portuguesa Lídia Jorge atrasou-se para a coletiva de imprensa. Chegou esbaforida e tentando se explicar. "Estava a fazer 'caracóis' nos cabelos. Não sabia que tinha este compromisso", disse a autora de A Manta do Soldado. Sem dúvida, uma das participantes mais simpáticas da Festa Literária.
enviada por Redação



09/07/2004 21:06
“Literatura feminina”: um rótulo repudiado pela escritoras

Por Luciana Araujo

PARATY – As escritoras Rosa Montero, Adriana Lisboa e Isabel Fonseca contestaram a existência de uma literatura feminina durante a mesa em que participaram nesta sexta-feira na Flip “Festa Literária Internacional de Parati". Antes mesmo destas manifestações, Flávio Pinheiro, diretor de programação do evento, desculpou-se pelo nome da mesa - “Vozes femininas”- reconhecendo a impossibilidade desta classificação literária.

“É muito difícil se livrar dessa coisa de ‘escrita feminina. Fica parecendo que é uma subliteratura e é uma leitura muito perigosa”, opinou a brasileira Adriana Lisboa, vencedora do prêmio José Saramago. Segundo ela, para classificar uma determinada literatura como feminina, seria preciso explicar este feminino. “Se o feminino for entendido como algo delicado e poético, por exemplo, se um homem escrever desta maneira estará fazendo literatura feminina?”, provocou Adriana.

A escritora espanhola Rosa Montero lembrou que como todo escritor, ela estava interessada em escrever sobre o ser humano independente do sexo. “Por um acaso 51% do gênero humano é composto por mulheres”, ironizou Rosa. Para ela o fato de alguém ter crescido no campo ou na cidade é muito mais decisivo em sua formação e conseqüente maneira de se expressar diante do mundo do que ser homem ou mulher.

Quando perguntada sobre como é ser casada com um escritor, a uruguaia naturalizada americana, Isabel Fonseca, que é casada com o escritor Martin Amis, estranhou a questão. “Este é o assunto em questão?”, perguntou rindo. Ela respondeu que era um companheiro que compreendia a necessidade típica de quem escreve de ficar só. Já Adriana Lisboa, que é casada com o escritor Flávio Carneiro, disse que seu processo de composição não é solitário. No entanto, lembrou quando ela e o marido trabalharam juntos em um roteiro. “Trabalhar a quatro mãos pode dar em divórcio”, disse.

enviada por Redação



09/07/2004 16:07
Luiz Vilela e Sérgio Sant'Anna opinam sobre a explosão do conto no Brasil

Por Luciana Araujo

Quando o assunto é o conto contemporâneo brasileiro, Luiz Vilela e Sérgio Sant'Anna são obrigatórios. Não à toa ambos foram convidados pela Flip “Festa Literária Internacional de Parati” para comporem a mesa “Breves (e exemplares) histórias”, em que este gênero, em que eles são referência, esteve no centro do debate.

Incomodado com comentários sobre quais devem ser os caminhos seguidos pela literatura atual, Sérgio Sant'Anna disse ter escolhido fazer a leitura de seu conto “Um conto abstrato”, porque acredita que também é possível tocar o leitor com experiências estéticas. “Escolhi como uma certa afirmação da experimentação da melodia”, afirmou.

Sérgio não citou nomes e ressaltou que não gostaria de polemizar, mas sua crítica foi claramente dirigida a declaração feita pelo escritor britânico Martin Amis, que disse em entrevista recente à revista “Bravo!” que o futuro da literatura está no destaque para o enredo.

Luiz Vilela, concordando com Sérgio Santana, companheiro de longa data, enfatizou que o escritor precisa ser livre para criar. “O autor tem que escrever o que quer. A necessidade de expressão da experiência é dele. O chão da arte é a liberdade”, sentenciou Vilela.

Os dois escritores falaram também sobre a grande quantidade de livros de contos que tem sido publicada no Brasil nos últimos anos. Sérgio Santana acredita que este excesso de cotistas que estão surgindo pode gerar qualidade. “. O conto é a inquietação da literatura no Brasil. Tanto os leitores como os editores precisam fazer uma seleção diante deste excesso” opinou Sérgio Sant'Anna.

Ainda sobre a explosão de novos autores, Luiz Vilela contou que recebe muitos livros, escritos por gente de todo o Brasil, lembrando as facilidades e recursos existentes hoje para a publicação. No entanto, apesar de apostar, como Santana, que o excesso gere qualidade, destacou alguns fatores fundamentais para se tornar um bom escritor: leitura; trabalho e sorte. “A loteria literária é mais difícil que a megasena”, comparou Luiz Vilela.


enviada por Redação



09/07/2004 13:51
Caetano e Agualusa se encontram pelo ideal de um Brasil mais africano

Por Luciana Araujo

O encontro entre o cantor Caetano Veloso e o escritor angolano José Eduardo Agualusa foi marcado por um ideal comum aos dois: o de que o Brasil lidere um movimento pela manutenção da cultura africana. Mediada pelo cineasta Cacá Diegues, a mesa contou com a presença maciça do público, que ocupou os 550 lugares da Tenda da Matriz, onde são realizadas as mesas.

Além da afinidade com o tema em questão “África e Brasil: verdades tropicais”, a junção dos dois artistas na mesma mesa também foi influenciada pela admiração que cada um tem pela obra do outro. Para Agualusa, a revelação do Brasil se deu justamente por meio das músicas de Caetano.

Por sua vez, Caetano teve o primeiro contato com a obra do escritor por meio de uma editora italiana. “Ela me pediu que escrevesse um texto de apresentação para “O dia em que Zumbi tomou o rio” – dedicado ao cantor -. Li e fiquei muito excitado e ao mesmo tempo indignado com o fato de o livro não ter sido um acontecimento comentado nos meios intelectuais e jornalísticos brasileiros”, destacou Caetano, que apesar do entusiasmo com este livro revelou que seu preferido de Agualusa é “Nação crioula”.

Agualusa e Caetano ressaltaram em vários momentos da discussão, a responsabilidade do Brasil em liderar um movimento em busca da sobrevivência da cultura africana. “O Brasil precisa descobrir a África em sua vitalidade moderna, no cinema, na literatura, na música. Hoje, a boa música que é feita em Londres e em Paris tem uma grande influência africana. Estranho isso não acontecer no Brasil”, observou Agualusa.
enviada por Redação



08/07/2004 21:58

Terceiro dia da Flip

O terceiro dia de encontros e palestras da 2 Festa Literária de Parati promete dar continuidade a abordagem de diferentes assuntos que envolvem a literatura. Nesta sexta-feira, os destaques são a escritora canadense Margaret Atwood, vencedora do Booker Prize em 2000. Os ingressos para as palestras estão esgotados. Quem quiser assistir, ainda restam algumas entradas para a Tenda da Matriz, que tem a transmissão ao vivo e com tradução simultânea.

Confira a agenda de hoje:

10 horas: Breves (e exemplares) histórias
Luiz Vilela e Sérgio Sant’Anna
Luiz Vilela é um dos mais notáveis contistas brasileiros. A cabeça, publicado em 2002, só confirmou seu talento. Seu próximo livro, porém, será um romance. Um crime delicado é um dos romances marcantes de Sérgio Sant’Anna, mas foi nos contos de O vôo da madrugada, publicado em 2003, que a crítica mais uma vez celebrou sua admirável habilidade de contar histórias curtas. Vilela e Sant’Anna são mineiros o que, quando o assunto é conto, não é considerado mera casualidade. Ambos figuram nas melhores antologias do conto brasileiro.

11h30: Duas narrativas inovadoras
Pierre Michon e Raimundo Carrero
Pierre Michon foi saudado como uma das mais originais vozes da literatura francesa quando lançou Vidas minúsculas, agora publicado no Brasil. Sua literatura inovadora e sem concessões tem parentesco com a que vem fazendo o pernambucano Raimundo Carrero: Ao redor do escorpião... uma tarântula? é seu exemplo mais recente. Michon e Carrero valem-se das possibilidades da linguagem para ir muito além do simples relato.

15 horas: Basta um dia
Colm Toíbín
“Entre a aurora e a noite/ está a história universal”, sintetiza Jorge Luis Borges, nos versos do poema “James Joyce”. O escritor Colm Tóibín, autor de obras consagradas e organizador da elogiada antologia da literatura irlandesa, vem falar, cem anos depois, do 16 de junho de 1904, o dia em que aconteceu tudo (e nada) na vida de Leopold Bloom, personagem de James Joyce em Ulisses, escolhido como o mais importante romance do século XX. O poeta Antonio Cicero lerá trechos de Ulisses em português.

16h30: A ficção especulativa
Margaret Atwood
Autora de mais de trinta livros de ficção, poesia e ensaios críticos, a obra de Margaret Atwood já foi publicada em 35 países. Além de A história da aia, seus romances incluem Olho de gato — indicado ao Booker Prize —, Vulgo, Grace — ganhador dos prêmios Giller, do Canadá, e Mondello, da Itália —, e O assassino cego, vencedor do Booker Prize de 2000. Oryx e Crake é seu 11º romance, considerado por Atwood uma obra de “ficção especulativa”.

18 horas: Vozes femininas
Rosa Montero, Isabel Fonseca, Adriana Lisboa e Geneviève Brisac
Escolhido pelos leitores espanhóis como o livro do ano de 2003, A louca da casa consagra a literatura de Rosa Montero, que só agora chega ao mercado brasileiro. Aqui, a prosa da jovem Adriana Lisboa já foi reconhecida e premiada: Sinfonia em branco ganhou o Prêmio José Saramago. Rosa e Adriana dividem a mesa com Isabel Fonseca e Geneviève Brisac. Isabel, elogiada autora de Enterrem-me em pé, uma história do povo cigano, fala sobre Elizabeth Bishop; a francesa Geneviève Brisac, ganhadora do Prix Femina de 1996, relembra a obra de Virginia Woolf.
enviada por Redação



08/07/2004 21:58

Lídia Jorge: um olhar sobre o colonialismo e outro no futuro

Juliana Junqueira

Um detalhe da arquitetura de Paraty chamou a atenção da autora portuguesa Lídia Jorge. Neta de um construtor de telhados, ela questionou porque as telhas da cidade histórica têm formatos diferentes. “No passado, usaram como fôrma as pernas das escravas”, contaram-lhe. Em visita à cidade para participar da 2 Festa Literária Internacional de Parati, a escritora encontrou detalhes que remetem à temática principal de sua obra: o colonialismo. “Não fizemos só coisa ruim para o seu país”, diz a escritora, como que se estivesse se desculpando pelo passado do Brasil Colônia.

A escritora não trata em suas obras do Brasil, mas da África, outro continente dominado. Lídia nasceu em Boliqueime, no Algarve, mas viveu entre 1969 e 1974 nas então colônias portuguesas Angola e Moçambique. Dessa experiência, nasceu a vontade de falar sobre o colonialismo. Segundo ela, esta tem sido uma temática bastante abordada em Portugal. Talvez até pelo fato de o distanciamento do período histórico permitir uma análise mais precisa e consistente sobre o que foi vivido.

“O português tinha creditava que quanto mais longe chegasse, lá estaria a sua murada”, afirmou ela em entrevista ao iG Ler. “A questão é que o português não ficou em seu lugar, não fez nada de palpável e não soube construir um império”, afirmou.

A conseqüência, segundo a autora, foi muita sangria e nenhuma melhora para os países colonizados. “A África chegou à degradação humana”, frisou. Segundo ela, há uma confusão hoje em que se confunde o movimento sobre as obras da época do colonialismo com saudosismo do império. “Não há do que ter saudade”, enfatiza a autora, cujo romance mais conhecido no Brasil é “A manta do soldado”, lançado pela Record em 2003.

Lídia é crítica também com relação à produção literária portuguesa. “O leitor tem que ter paciência com os escritores portugueses”, brinca. Para ela, a narrativa de seu país é diferente, circular, não auxilia o leitor.
enviada por Redação



08/07/2004 19:57

A família une a literatura de vários países

Juliana Junqueira

A família e sua importância para a construção de um romance foi o tema do quarto debate de quinta-feira, durante 2 Festa Literária Internacional de Paraty. O encontro de hoje reuniu a americana Siri Hustvedt, a portuguesa Lídia Jorge e o irlandês Colm Tóibín. Os escritores discutiram que a família ainda é o cerne de grande parte das narrativas. No encontro, eles falaram sobre como as novas estruturas familiares e a própria modernidade influenciam a composição dos romances modernos.

Logo de início, cada autor leu um trecho de sua obra por cerca de dez minutos. O trecho escolhido pelo irlandês Colm Toíbín – do livro “A Luz do Farol” (1999) – destacou o momento em que um dos personagens, depois de participar de um evento gay, decide revelar a sua família sua opção sexual. “De certa forma os gays reinventaram a família ou criaram uma nova estrutura familiar”, disse o autor, que explora nesta e em outras obras publicadas a temática homossexual.

A americana Siri Hustvedt – mulher do aclamado escritor Paul Auster - concorda que a maior parte dos romance envolvem ou são sobre a família. “Somos formados dentro e através dos outros. Nossa relação com a família começa cedo”, pondera a escritora, que escolheu para ler um trecho da obra “O que eu amava”, que acaba de ser publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

A escritora portuguesa Lídia Jorge questionou se realmente a unidade familiar desapareceu. Para a autora, que leu parte do seu premiado livro “A manta do soldado”, a primeira vista esta unidade foi destruída. “Mas isso não é verdade, pois no fundo os sentimentos são os mesmos”, ponderou a escritora, que protagonizou um dos momentos mais engraçados do encontro.

Lídia foi questionada sobre porque o livro “A Manta do soldado” tem aqui e em outros países o título diferente do usado em Portugal. Lá, a obra chama-se O Vale da paixão. A escritora contou que o livro nasceu com o nome “Diante da manta do soldado”. Mas seu editor a aconselhou a mudar para não confundir o leitor com suas obras anteriores. Lídia tem dois livros publicados sobre a guerra na África. A autora concordou, ao constatar que isso poderia comprometer a identidade da obra, que tem como tema central um mistério envolvendo a vida de um ex-soldado. Assim, o livro em Portugal recebeu o título de “O vale da paixão”. “Mas sempre que ele é publicado em outros países, peço para usarem o título original”, contou ela sobre seu único capricho.

enviada por Redação



08/07/2004 18:34
Autor do romance “As virgens suicidas” fala sobre o filme homônimo

Por Luciana Araujo

O escritor americano Jeffrey Eugenides e o britânico Jonathan Coe participaram na tarde desta quinta-feira da mesa “Sátira política, sátira social”, da Flip “Festa Literária Internacional de Parati”. Mediada pelo jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, a discussão girou em torno de algumas semelhanças entre os escritores e surpreendeu a platéia com novidades.

Entre as novidades Jonathan Coe leu um trecho de “Closed Circles”, seu novo livro que será lançado no mês que vem na Inglaterra e Jonathan Coe fez, enfim, comentou sua impressão sobre o filme da diretora Sophia Coppola, baseado no romance do autor, “As virgens suicidas”.

“Eu acho que o autor do livro nunca deve dar opinião neste caso ou deve ser o último a ser perguntado sobre isso. O que acontece é que você tem uma intimidade muito grande com a obra, conhece todos os detalhes do diálogo e peculiaridades de tudo o que vai acontecer e o filme, desta forma, é uma coisa estranha a você. O estado emocional não deixa o crítico atuar”, argumentou Eugenides, que disse, brincando com Sérgio Rodrigues, que só estava respondendo àquela pergunta porque tinha sido feita por uma das pessoas da platéia e não pelo jornalista.

Quando perguntado se eles se consideravam escritores políticos, já que a política estava muito presente na obra dos dois, Eugenides disse apenas “sim”, dizendo, em tom bem humorado, que iria se esforçar para dar respostas com mais de uma palavra. Por sua vez, Coe fez questão de explicar o porquê desta preferência temática. “Eu estou interessado na relação dos indivíduos com a sociedade e os governos e suas ações interferem diretamente nas decisões de cada um”, explicou o britânico.

Sobre as impressões sobre o Brasil, Eugenides disse que ainda não pode dizer muito, mas constatou que a lista de livros mais vendidos no país tinha um nível muito superior, em termos de qualidade literária, se comparada a de outros países, inclusive europeus. Coe, falando especificamente sobre a Flip, disse ter notado um vocabulário emocional e de paixão muito grande durante o evento, o que, segundo ele não acontece em festivais europeus do mesmo tipo.
enviada por Redação



08/07/2004 13:50
Novos autores na Flip: a literatura e a luta pela publicação

Por Luciana Araujo

A primeira mesa da Flip “Festa Literária Internacional de Parati” desta quinta-feira contou com a presença dos escritores Marcelino Freire, Joca Reiners Terron, e Daniel Galera. Sob a temática “Urbana Prosa: caras novas”, eles falaram sobre seus trabalhos como escritores e também como “agitadores culturais”, questões instigadas pelo jornalista e diretor de programação do evento, Flávio Pinheiro, que mediou a discussão.

Antes de iniciarem o debate, os autores leram alguns de seus contos. Joca Reiners Terron escolheu “Monarks atravessam o Apa”, conto de seu livro “A curva do Rio Sujo”. Em uma breve introdução, Joca destacou o espaço onde se passa história, a fronteira entre o Mato Grosso do Sul e o Paraguay, entre outros detalhes. “Nela, o narrador está preso no passado”, explicou Joca, que logo iniciou a leitura: “Meu coração jaz úmido do barracão num terreno baldio às margens do Apa, sepultado por Basano La Tatuada, líder da gangue paraguaya de Bella Vista Norte.”, primeiro parágrafo do conto.

O gaúcho Daniel Galera falou sobre sua necessidade de escrever, citando o livro “A idade viril”, de Michel Leiris (1901-1990). “Eu escrevo para iluminar áreas escuras da minha vida e para mostrá-las para o outro”, disse Galera, que leu seu conto “Tiroteio”. “Eu estava no bar do Zé comendo uma coxinha de galinha e tomando uma cerveja, nada que eu já não tivesse feito antes. Havia, como de praxe, meia dúzia de pescadores bêbados cambaleando entre as duas mesas (...)”, trecho inicial do texto.

Marcelino Freire, por sua vez, ressaltou que sua maneira de compor é guiada por uma “memória musical”. “Eu escrevo a partir da música do que está sendo dito”, disse o escritor. Musicalidade que não passou despercebida pela platéia quando o autor deu voz e vida a três de seus contos.

“Lixo? Lixo serve pra tudo. A gente encontra a mobília da casa, cadeira pra pôr uns pregos e ajeitar, sentar. Lixo pra poder ter sofá, costurado, cama, colchão. Até televisão.”, trecho do conto“Muribeca”, do livro “Angu de Sangue”, de Marcelino Freire, que também leu “A volta de Carmem Miranda”, do livro “Balé Ralé” e o conto até então inédito, “Nação Zumbi”. Segue trecho: “E o rim não é meu? Logo eu que ia ganhar dez mil, ia ganhar. Tinha até marcado uma feijoada pra quando eu voltar, uma feijoada. E roda de samba pra gente rodar. Até clarear, de manhã, pelas bandas de cá.”.

Joca Reiners Terron, Daniel Galera e Marcelino Freire falaram ainda de suas experiências na hora de publicar seus trabalhos. Tanto Joca, quanto Galera têm suas próprias editoras, respectivamente “Ciência do Acidente” e “Livros do Mal”. Aliás, Galera comentou que foi decisivamente inspirado pela experiência de Joca. Ambos destacaram que a proximidade com recursos como o computador e a atuação profissional (Joca, por exemplo, é designer) o impulsionaram a não ficar esperando um editor cair do céu e cuidar de suas próprias publicações.

Marcelino Freire, que hoje é publicado pela editora Ateliê Editorial, lembrou que seus primeiros livros “Acrústico” e “EraOdito” também foram publicados por iniciativa e recursos próprios. “Foi durante um encontro, em que eu li “Muribeca”, que o crítico João Alexandre Barbosa ouviu e me apresentou para os editores”, contou Freire.
enviada por Redação



08/07/2004 12:10
"Grande Sertão: Veredas" é o assunto da primeira mesa na Flip

Por Luciana Araujo

A primeira mesa da Flip "Festa Literária Internacional de Parati", que começou nesta quarta-feira, teve como tema "Grande Sertão: Veredas" (1956), único romance de João Guimarães Rosa, o escritor homenageado nesta segunda edição do evento. Nela, o crítico, escritor e professor de literatura, Davi Arrigucci Jr, destacou a vocação para a totalidade de tratar a experiência humana que possui esta grande obra rosiana, considerada a mais importante da literatura brasileira do século XX.

Ao falar sobre o caráter grandioso e da busca de fazer uma espécie de súmula da vivência do homem como um ser individual e singular presente em "Grande Sertão: Veredas", Arrigucci Jr. o igualou a outras grandes obras da literatura mundial como "Ulisses", de James Joyce e "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust.

Com relação à comparação feita a Joyce, em um outro momento da palestra, Arrigucci fez questão de dizer que apesar de identificar semelhanças entre um autor e outro, como tomar o singular, o pequeno e o regional e transformar em universal e imenso, não concorda que o processo de escrita dos dois seja parecido.

A seguir, o crítico falou sobre a importância de uma discussão como esta, não só para motivar a leitura daqueles que ainda não se aventuram nas páginas da obra, mas também para que aqueles que já a leram poderem repensa-la. Entre as características do romance, o crítico destacou a forma mesclada de "Grande Sertão: Veredas".

"Há uma grande mistura de formas: lingüística, na caracterização dos personagens, de gêneros literários, sexual e nas formas narrativas", listou Arrigucci, resumindo tudo isso numa frase que parafraseia o texto em questão. "É um todo muito entrançado", arrematou.

Durante a apresentação, Arrigucci Jr. leu um trecho de "Grandes Sertões: Veredas", que pode ser acompanhado pela platéia em um telão, o qual o eterno professor acabou chamando de lousa. Segue o trecho lido: "Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não. Deus esteja. (...). O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães é questão de opiniães, o sertão está em toda parte."

A descontração não ficou isolada a este episódio. Em um breve comentário sobre o jagunço "político"Zebebelo, personagem do romance, todos riram quando o crítico o comparou ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Apesar da grande complexidade do assunto, o romance de Guimarães foi tratado com um entusiasmo contagiante. Arrigucci fez ainda questão de lembrar que, ao contrário do que sempre é dito, as palavras usadas por Guimarães em sua obra raramente são neologismos. "A grande maioria das palavras são encontradas no dicionário.Tratam-se na maioria das vezes de arcaísmos", disse. Lembrou ainda, que a palavra "nonada", por exemplo, tinha sido utilizada em 1951, cinco anos antes da publicação de "Grande Sertão: Veredas", por Carlos Drummond de Andrade em um dos poemas do livro "Claro enigma".

Sobre a Flip, Arrigucci Jr. disse que participar da festa era "estar presente em um encontro internacional de leitores".
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08/07/2004 11:55
Filha de Guimarães Rosa é homenageada na abertura da Flip

Por Luciana Araujo

A programação oficial da segunda edição da Flip "Festa Literária Internacional de Parati" foi aberta na tarde desta quarta-feira com uma homenagem da prefeitura de Paraty à escritora e filha de João Guimarães Rosa, Vilma Guimarães Rosa. O prefeito José Cláudio de Araújo e o vereador José Pital entregaram à Vilma uma moção de aplausos."De todo coração: muito obrigada", disse Vilma, tomada de emoção, em agradecimento ao gesto.

Na seqüência, a escritora iniciou seu tributo a Guimarães Rosa, o grande homenageado da Flip 2004. Vilma iniciou sua fala destacando que falar de seu pai é sempre um dever, assim como um motivo de orgulho e devoção. Vilma, que trouxe sua conferência escrita, contou em palavras repletas de metáforas e poesia a vida do pai, destacando que tal narrativa seria "um desafio à sensibilidade" pois que tudo o que contava a enchia de saudade.

Deste modo, dados biográficos do autor já conhecidos pelo público, como o nascimento na cidade mineira de Cordisburgo, os estudos em Belo Horizonte, a vida diplomática, entre outros, foram se misturando a descrições e impressões muito particulares do homem que ele foi.

Entre as curiosidade sobre o Joãozito, forma como Guimarães era chamado pelos familiares quando menino, Vilma contou que aos sete anos de idade ele já era um verdadeiro rato de biblioteca, destacando um episódio. "Ele comprava limonada e empadinhas e entrava na biblioteca pública de Belo Horizonte. Certa vez, alguém, incomodado com aquele piquenique fez uma reclamação aos responsáveis pela administração. No entanto, o bibliotecário perguntou ‘você viu o que ele está lendo?’ – era um clássico francês - . Então, o rapaz completou ‘eu não me importo que ele engordure o livro", relatou Vilma.

Sobre a vida diplomática de Guimarães na Embaixada de Hamburgo durante a Segunda Guerra Mundial, uma das que mais impressionou a platéia era na verdade um relato de uma experiência fé. Vilma contou que o pai, agoniado por uma vontade tamanha de fumar, saiu de casa em Hamburgo, à procura de cigarros. Guando voltou a casa tinha sido bombardeada. Atribui o fato a uma intervenção divina.

Entre as várias características pessoais do pai, Vilma lembrou, por exemplo, o seu grande devotamento a tudo o que se propunha fazer. "O devotamento ao estudo, ao ofício literário era o mesmo que tinha ao fazer um desenho para os netos", citou a escritora.

Vilma não deixou também de prestar homenagem a sua mãe, Lygia Cabral Afonso Pena. "Ele é uma permanente reserva de surpresas", costuma dizer Lygia para a filha, referindo-se a Guimarães.

O encontro de três gerações de poetas na Flip

Juliana Junqueira, enviada especial em Paraty

PARATY- Três gerações de poetas, três estilos diferentes e uma coincidência: criações que aproveitam toda a sonoridade e ambigüidade da língua portuguesa para expressar a poesia. A terceira mesa da Festa Literária de Parati reuniu os escritores Francisco Alvim, Antonio Cícero e Arnaldo Antunes para não só falar de poesia, mas ler suas obras.

Por mais de uma hora, os três intercalaram-se lendo suas obras e oferecendo aos ouvintes o privilégio de ouvir a palavra escrita com o sabor da falada. Francisco Alvim – representante da geração 68 – é autor de versos sintéticos e precisos. Mineiro, o poeta que tem em seu currículo um Prêmio Jabuti usou do bom humor ou da ironia para atrair os expectadores e leitores. “Muitas vezes não transmito idéias, mas conflitos, emoções, exaltação”, disse Alvim.

Boa parte do encontro foi marcada pela musicalidade das obras de Antonio Candido (irmão e parceiro da cantora Marina Lima) e de Arnaldo Antunes, ex-integrante dos Titãs. Diz-se que a poesia dos dois é a palavra cantada. Foi justamente o que eles apresentaram. Cícero usou de um tom ritmado e preciso para ler poemas como A Prova, que ele dedicou ao compositor José Miguel Wisnik.

Os grandes momentos da mesa foram proporcionados por Arnaldo Antunes, que tem um estilo bem peculiar para ler a sua obra. Antunes usa não só da palavra, mas também do tom da voz, timbre, volume para complementar sua leitura. Para o artista, a criação de um poema é sempre muito prazerosa. “Sinto-me como quando era criança, brincando”, explicou o autor de As Coisas, que recebeu o Prêmio Jabuti de Poesia em 2002.

Tanto Cícero quanto Antunes surpreenderam o público ao revelarem que a criação da poesia escrita é diferente da cantada. “As letras de música podem ter o valor de um poema escrito, mas nem sempre funciona assim A letra é um organismo que só funciona com a canção”, explicou Cícero.



Arnaldo Antunes também acredita que o método de criação é diferente. “Não há como negar que há exceções, vários poemas meus foram musicados por outros artistas e o resultado foi legal”, disse. Mas para Antunes cada obra já nasce com um formato. “Quando começo a escrever já seu quando será uma poesia escrita, uma arte digital ou música”.
enviada por Redação



06/07/2004 18:40
Flip: Paraty para Guimarães Rosa e para ti

Por Luciana Araujo

O grande homenageado da 2ª edição da Flip (Festa Literária de Parati), que começa nesta quarta-feira, é Guimarães Rosa. A primeira mesa que abre o encontro, que acontece até domingo, tem como tema principal “Grande Sertão: Veredas”, único romance do escritor e considerado o mais expressivo da literatura brasileira do século XX. Na seqüência, será realizado um show em tributo à toda a obra rosiana justamente pela música nela presente. Musicalidade que ganhará voz com Caetano Veloso, Mônica Salmaso, Arnaldo Antunes, o grupo Uakti e Arto Lindsay.

O tributo a Guimarães Rosa não está relacionado a nenhuma data comemorativa. Izabel Costa Cermelli, diretora executiva do evento, conta que o autor foi escolhido porque apesar de sua prosa ser extremamente representativa de nossa cultura, ela ainda não é muito conhecida internacionalmente. “Existem boas traduções da obra de Guimarães no exterior, mas ainda é muito pouco. A Flip, como um encontro internacional de literatura, tem o objetivo de não só trazer os autores estrangeiros, mas também de mostrar a literatura produzida aqui para o mundo”, explica Izabel.

No ano passado, o homenageado foi o escritor Vinícius de Morais e o propósito de divulgação era o mesmo. Entretanto, Izabel diz que não foi feito um acompanhamento para contabilizar os frutos da Flip e que por enquanto não há esta intenção. “A presença de agentes literários e editores estrangeiros, sem dúvida, pode estreitar as possibilidades e ampliar o interesse de publicação de autores brasileiros lá fora, mas a Flip é, sobretudo, um encontro cultural e social entre autores e leitores”, destaca.

A Flip, no entanto, apesar desta homenagem, não é monotemática. Flávio Pinheiro, diretor de programação, responsável por fazer o convite aos escritores e reuni-los em torno de alguns temas e por afinidades peculiares – como é o caso da conversa entre Chico Buarque e o americano Paul Auster, que têm em seus livros “Budaspeste” e “Noite do Oráculo”, respectivamente, o romance dentro do romance – preocupou-se principalmente em proporcionar aos participantes da Flip uma programação variada. “A literatura é facetada. Os estilos são distintos em seus gêneros, da mesma forma, minha idéia foi trazer para a Flip este mesmo painel variado”, diz.

Paraty, aliás, foi escolhida como sede da Festa pela editora e presidente da Flip, Liz Calder, justamente por facilitar este encontro. “A cidade é pequena, as pessoas transitam a pé, os escritores e seu público tomam café nos mesmos lugares”, diz Izabel, que lembra de um episódio engraçado acontecido ano passado. “Uma mulher se aproximou de um dos escritores e começou a dizer que o conhecia, que ele era aquele escritor português. Ela estava confundindo o Zuenir Ventura com o Saramago”, ri.

E se as ruas e casas de Paraty compõe o cenário ideal para o que desejam os organizadores da Flip, a cidade, por sua vez, não deixa de ter sua retribuição. De acordo com Izabel, o evento trás mais recursos que o carnaval ou qualquer outro feriado, o que contribui para um outro grande objetivo: Paraty ser titulada como Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Afinal, o município é um dos candidatos ao título, mas para isso, precisa comprovar capacidade de gestão do patrimônio.

E por falar na cidade, o nome do encontro “Festa Literária Internacional de Parati”, assim escrito com “i” no lugar do “y”, foi pensado justamente pela possibilidade de ser entendido não só como referência ao nome do lugar, mas também ao “para você”. “Este é o nome que pensamos para uma possível publicação da Flip, reunindo o conteúdo do evento”, conta Flávio Pinheiro. Idéia que ainda está de pé, mas que ainda não está acertada. Vamos ficar aguardando.


enviada por Redação



05/07/2004 18:31

Autores da Rocco: um quarteto de prestígio na Flip

Um quarteto de peso vai representar a Rocco este ano na Festa Literária de Parati (FLIP): o norte-americano Jeffrey Eugenides, a canadense Margaret Atwood e as brasileiras Lygia Fagundes Telles e Adriana Lisboa.

O primeiro a se apresentar na FLIP será Jeffrey Eugenides, vencedor do Pulitzer 2003 de melhor ficção, pelo romance Middlesex. No dia 8, às 15h, o autor participará da Mesa 4, cujo tema é "Sátira política, sátira social". O laureado Middlesex é sua melhor credencial para o debate, pois trata da saga de uma família que atravessa cem anos da história dos EUA fazendo sexo entre si, com direito a várias procriações consangüíneas que culminam no nascimento do narrador, um hermafrodita que só se descobre homem depois de ter passado boa parte da vida pensando que era mulher.

No dia 9, às 16h30, será a vez de Margaret Atwood, que terá a Mesa 10 só para ela. Nada mais justo: o tema, "A ficção especulativa", é uma expressão cunhada pela autora para classificar seus romances de temática futurista, como Oryx e Crake, publicado este ano no Brasil. Embora já tenha recebido prêmios específicos de ficção científica, a escritora não considera adequado dizer que suas obras mais visionárias se enquadram em tal gênero. Na FLIP, ela explicará por quê. Margaret Atwood também aproveitará o evento para lançar seu novo livro, "Negociando com os mortos", em que analisa as questões práticas e filosóficas que existem por trás do trabalho do escritor. Por fim, no dia 11, às 16:45 h, a ganhadora do Booker Prize 2000 participa do debate de encerramento da festa, "Literatura de estimação" (Mesa 19), em que grandes autores revelarão quais são seus livros de cabeceira.

A jovem Adriana Lisboa foi uma escolha acertada para a Mesa 11, sobre as "Vozes femininas" da literatura, agendada para as 18h do dia 9. Em 2003, ela se tornou a primeira brasileira a receber o Prêmio José Saramago, concedido a cada dois anos pela Fundação Círculo de Leitores, de Portugal, a um escritor cuja obra de ficção seja considerada importante para a divulgação e o enriquecimento do patrimônio literário em língua portuguesa. Adriana desponta como uma das grandes revelações femininas da literatura brasileira nos últimos anos, mas com o diferencial de já gozar de reconhecimento internacional. O curioso é que seu último romance, "Um beijo de Colombina", é narrado por um homem, o que certamente será discutido no debate.

E no dia 10, às 15h, a FLIP contará com a presença de Lygia Fagundes Telles, grande dama das letras que lança o livro "Antologia – Meus contos preferidos", com 31 dos contos selecionados pela própria escritora. A autora, uma imortal da Academia Brasileira de Letras, estará na Mesa 14 discutindo o que considera "Os clássicos dos clássicos", as obras máximas da literatura universal.

Todos os debates acontecerão na Tenda dos Autores, com ingressos a R$ 15. Eles serão transmitidos ao vivo num telão na Tenda Matriz, na Praça da Matriz, com tradução simultânea e ingressos mais baratos: R$ 5,00.
enviada por Redação






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