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08/07/2004 12:10
"Grande Sertão: Veredas" é o assunto da primeira mesa na Flip
Por Luciana Araujo
A primeira mesa da Flip "Festa Literária Internacional de Parati", que começou nesta quarta-feira, teve como tema "Grande Sertão: Veredas" (1956), único romance de João Guimarães Rosa, o escritor homenageado nesta segunda edição do evento. Nela, o crítico, escritor e professor de literatura, Davi Arrigucci Jr, destacou a vocação para a totalidade de tratar a experiência humana que possui esta grande obra rosiana, considerada a mais importante da literatura brasileira do século XX.
Ao falar sobre o caráter grandioso e da busca de fazer uma espécie de súmula da vivência do homem como um ser individual e singular presente em "Grande Sertão: Veredas", Arrigucci Jr. o igualou a outras grandes obras da literatura mundial como "Ulisses", de James Joyce e "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust.
Com relação à comparação feita a Joyce, em um outro momento da palestra, Arrigucci fez questão de dizer que apesar de identificar semelhanças entre um autor e outro, como tomar o singular, o pequeno e o regional e transformar em universal e imenso, não concorda que o processo de escrita dos dois seja parecido.
A seguir, o crítico falou sobre a importância de uma discussão como esta, não só para motivar a leitura daqueles que ainda não se aventuram nas páginas da obra, mas também para que aqueles que já a leram poderem repensa-la. Entre as características do romance, o crítico destacou a forma mesclada de "Grande Sertão: Veredas".
"Há uma grande mistura de formas: lingüística, na caracterização dos personagens, de gêneros literários, sexual e nas formas narrativas", listou Arrigucci, resumindo tudo isso numa frase que parafraseia o texto em questão. "É um todo muito entrançado", arrematou.
Durante a apresentação, Arrigucci Jr. leu um trecho de "Grandes Sertões: Veredas", que pode ser acompanhado pela platéia em um telão, o qual o eterno professor acabou chamando de lousa. Segue o trecho lido: "Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não. Deus esteja. (...). O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães é questão de opiniães, o sertão está em toda parte."
A descontração não ficou isolada a este episódio. Em um breve comentário sobre o jagunço "político"Zebebelo, personagem do romance, todos riram quando o crítico o comparou ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Apesar da grande complexidade do assunto, o romance de Guimarães foi tratado com um entusiasmo contagiante. Arrigucci fez ainda questão de lembrar que, ao contrário do que sempre é dito, as palavras usadas por Guimarães em sua obra raramente são neologismos. "A grande maioria das palavras são encontradas no dicionário.Tratam-se na maioria das vezes de arcaísmos", disse. Lembrou ainda, que a palavra "nonada", por exemplo, tinha sido utilizada em 1951, cinco anos antes da publicação de "Grande Sertão: Veredas", por Carlos Drummond de Andrade em um dos poemas do livro "Claro enigma".
Sobre a Flip, Arrigucci Jr. disse que participar da festa era "estar presente em um encontro internacional de leitores".
enviada por Redação
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