Tributo a Guimar�es Rosa
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11/07/2004 16:46
José Miguel Wisnik dá o recado de Guimarães Rosa na Flip

Por Luciana Araujo

A primeira mesa do último dia da Flip “Festa Literária Internacional de Parati” deu conta de um recado enigmático: a arte de João Guimarães Rosa, escritor homenageado nesta segunda edição do evento. O menino de recados? O músico e professor de literatura da USP (Universidade de São Paulo), que foi aplaudido de pé pela platéia que prestigiou sua palestra.

Em uma minuciosa análise, Wisnik percorre e desvenda, parada por parada, o caminho pontuado por personagens recadeiros de “O Recado do Morro”. Neste conto de Guimarães, presente no livro “Corpo de Baile”, um naturalista nórdico parte em uma viagem de ida e volta em uma comitiva junto com um fazendeiro e um frei, guiada por dois sertanejos. Eles partem de Cordisburgo (cidade natal do escritor) rumo ao rio São Francisco, percurso feito pelo próprio Guimarães e registrado em fotos bastante conhecidas, em que ele aparece a cavalo.

“A história mergulha no mundo iletrado, da oralidade sertaneja, por uma perspectiva do superletrado”, explica Wisnik, referindo-se ao encontro entre o personagem do estudioso dinamarquês, que quer registrar tudo o que vê, “dando nome ao que não tem nome”, aquele que é o homem dos livros e conhece os clássicos da literatura universal com o homem do sertão mineiro e com a própria realidade geográfica.

Os personagens recadeiros que pontuam o caminho da comitiva são: Gorgulho, o ermitão, que diz ter ouvido um recado do morro dirigido ao sertanejo Pedro Osório; Catrás, irmão de Gorgulho, que conta a seu modo o que ouvira do primeiro; o menino que gosta de se comunicar, Joãozezim; Guégue, um rapaz que leva e traz recados dos fazendeiros; o fanático religioso Nominedomine, que, por sua vez, reconta o que ouvira de Guégue e o poeta-cantador Laudelim, que faz uma canção a partir do relato.

E como se dá este encontro? - Segundo a leitura feita por Wisnik, este encontro entre o oral e o escrito, presente na obra de Guimarães, se dá por meio do recado. Wisnik lembrou ainda o fato de a palavra “recado” não possuir uma tradução que dê conta do sentido que tem para o português falado no Brasil. Assim como não há a mesma idéia contida nos possíveis sinônimos: “mensagem” e “comunicado”.

O professor pontuou as características dos personagens que vão surgindo neste trajeto, assim como a relação entre os significados cifrados dos nomes dos lugares, com a peculiaridade do ocorrido em cada encontro. “É a viagem de um recado que vai se transformando até ganhar sentido”, disse Wisnik. Neste caminho a paisagem retratada também é decisiva.“O rio se comunica por recados”, interpretou o professor, lembrando que rios em Minas passam tanto pela face visível das montanhas, como pela face invisível das grutas.

A ambivalência entre o oral e o escrito não é a única na obra de Guimarães. O tal recado do morro, por exemplo, fala tanto de festa como de morte e remete, segundo a leitura de Wisnik, ao enigma da própria formação do Brasil, em que público e privado se confundem, ao “homem cordial” - de Sérgio Buarque de Holanda - para quem a regra que vigora é da vingança e da aliança, em que arcaico e moderno não se excluem.

“O Brasil é uma droga no duplo sentido do termo e Guimarães nos transmite o recado de uma alquimia desse Brasil que é veneno e remédio”. Afinal, “O Brasil nunca se entende por isto ou aquilo, mas por isto e aquilo”. conclui Wisnik.
enviada por Redação






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