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08/07/2004 13:50
Novos autores na Flip: a literatura e a luta pela publicação
Por Luciana Araujo
A primeira mesa da Flip Festa Literária Internacional de Parati desta quinta-feira contou com a presença dos escritores Marcelino Freire, Joca Reiners Terron, e Daniel Galera. Sob a temática Urbana Prosa: caras novas, eles falaram sobre seus trabalhos como escritores e também como agitadores culturais, questões instigadas pelo jornalista e diretor de programação do evento, Flávio Pinheiro, que mediou a discussão.
Antes de iniciarem o debate, os autores leram alguns de seus contos. Joca Reiners Terron escolheu Monarks atravessam o Apa, conto de seu livro A curva do Rio Sujo. Em uma breve introdução, Joca destacou o espaço onde se passa história, a fronteira entre o Mato Grosso do Sul e o Paraguay, entre outros detalhes. Nela, o narrador está preso no passado, explicou Joca, que logo iniciou a leitura: Meu coração jaz úmido do barracão num terreno baldio às margens do Apa, sepultado por Basano La Tatuada, líder da gangue paraguaya de Bella Vista Norte., primeiro parágrafo do conto.
O gaúcho Daniel Galera falou sobre sua necessidade de escrever, citando o livro A idade viril, de Michel Leiris (1901-1990). Eu escrevo para iluminar áreas escuras da minha vida e para mostrá-las para o outro, disse Galera, que leu seu conto Tiroteio. Eu estava no bar do Zé comendo uma coxinha de galinha e tomando uma cerveja, nada que eu já não tivesse feito antes. Havia, como de praxe, meia dúzia de pescadores bêbados cambaleando entre as duas mesas (...), trecho inicial do texto.
Marcelino Freire, por sua vez, ressaltou que sua maneira de compor é guiada por uma memória musical. Eu escrevo a partir da música do que está sendo dito, disse o escritor. Musicalidade que não passou despercebida pela platéia quando o autor deu voz e vida a três de seus contos.
Lixo? Lixo serve pra tudo. A gente encontra a mobília da casa, cadeira pra pôr uns pregos e ajeitar, sentar. Lixo pra poder ter sofá, costurado, cama, colchão. Até televisão., trecho do contoMuribeca, do livro Angu de Sangue, de Marcelino Freire, que também leu A volta de Carmem Miranda, do livro Balé Ralé e o conto até então inédito, Nação Zumbi. Segue trecho: E o rim não é meu? Logo eu que ia ganhar dez mil, ia ganhar. Tinha até marcado uma feijoada pra quando eu voltar, uma feijoada. E roda de samba pra gente rodar. Até clarear, de manhã, pelas bandas de cá..
Joca Reiners Terron, Daniel Galera e Marcelino Freire falaram ainda de suas experiências na hora de publicar seus trabalhos. Tanto Joca, quanto Galera têm suas próprias editoras, respectivamente Ciência do Acidente e Livros do Mal. Aliás, Galera comentou que foi decisivamente inspirado pela experiência de Joca. Ambos destacaram que a proximidade com recursos como o computador e a atuação profissional (Joca, por exemplo, é designer) o impulsionaram a não ficar esperando um editor cair do céu e cuidar de suas próprias publicações.
Marcelino Freire, que hoje é publicado pela editora Ateliê Editorial, lembrou que seus primeiros livros Acrústico e EraOdito também foram publicados por iniciativa e recursos próprios. Foi durante um encontro, em que eu li Muribeca, que o crítico João Alexandre Barbosa ouviu e me apresentou para os editores, contou Freire.
enviada por Redação
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